Mulheres muito fortes e homens muito frágeis: o que está acontecendo com os casais hoje?
- Dra Beatriz Guntzel

- 1 de fev.
- 3 min de leitura
Na clínica com casais, um padrão tem aparecido com muita força: mulheres potentes, firmes, decisivas, capazes de sustentar quase tudo sozinhas… e homens que até amam, até tentam, mas parecem frágeis, inseguros e, muitas vezes, incapazes de oferecer a proteção que a mulher pede.
Isso não é “drama de casal”. É um fenômeno coletivo. Um retrato do nosso tempo.
E quando a gente não compreende esse movimento, é fácil cair em dois extremos perigosos: culpabilizar o homem ou endurecer ainda mais a mulher. Só que nenhum dos dois cura.
O que cura é ver o que está por trás.

A força da mulher não é o problema. A solidão nela é.
Muitas mulheres hoje fazem tudo. Elas sustentam o emocional da casa, o ritmo da vida, os filhos, as decisões, as contas, as demandas invisíveis. Elas dão conta. E o mundo ainda aplaude.
Mas por dentro, o corpo cobra.
Não é raro ouvir no consultório: “eu não aguento mais”, “eu queria descansar em alguém”, “eu queria ser cuidada”, “eu queria não ter que mandar em tudo”.
Essa mulher não está exigindo demais. Ela está sobrecarregada de função.
E quando a mulher sustenta o sistema sozinha por muito tempo, duas coisas começam a acontecer: ela perde a doçura e o desejo. E, sem perceber, ela começa a falar com o homem como se estivesse educando alguém.
Não porque ela queira humilhar, mas porque ela está exausta.
O homem não perdeu o amor. Ele perdeu a estrutura.
Antropologicamente, os homens atravessaram a história sendo preparados para a vida adulta por ritos claros: responsabilidade, limite, coragem, sustentação do grupo.
Só que hoje, muitos homens não foram iniciados nessa travessia.
Eles cresceram sem referência paterna firme, sem modelo de presença masculina estável, sem treino real de carregar responsabilidade. Foram educados para “não ser bruto”, o que é ótimo, mas não foram ensinados a sustentar.
O resultado não é um homem violento. É um homem emocionalmente sensível, porém sem eixo.
E isso aparece na vida a dois como medo de decidir, fuga do conflito, postergação, dependência emocional, sensação constante de insuficiência.
Ele quer ser forte, mas não sabe como.
O que está em crise é a função do masculino.
Na psicanálise, existe um ponto importante: não estamos falando de “pai” ou de “homem”. Estamos falando de função.
A função masculina saudável não é mandar. Não é dominar. Não é fechar o coração.
A função masculina saudável é sustentar o campo. Dar chão. Proteger. Ser referência.
Quando isso falha, alguém ocupa esse lugar.
E na maioria dos casais, quem ocupa é a mulher.
Ela decide, ela media, ela controla, ela antecipa, ela segura.
Com o tempo, isso transforma o relacionamento. O amor vai virando gestão. O vínculo vai virando trabalho. E o desejo, que precisa de admiração e relaxamento, vai desaparecendo.
Desejo não nasce onde existe maternagem.
A impaciência da mulher é luto.
Muitas mulheres não estão com raiva do homem. Elas estão de luto.
Luto por não poder descansar.
Luto por não poder ser vulnerável.
Luto por perceber que, se ela soltar, tudo cai.
E muitos homens não estão indiferentes. Eles estão envergonhados.
Vergonha por sentir que nunca é suficiente. Vergonha por ser visto como fraco. Vergonha por não saber conduzir.
Esse encontro vira um círculo: quanto mais ela endurece, mais ele recua. Quanto mais ele recua, mais ela endurece.
E o casal se perde.
O caminho não é disputa. É reposicionamento.
A cura não está em tornar o homem “mais forte” na marra. Nem em ensinar a mulher a “ser mais feminina” para não incomodar.
A cura está em reorganizar lugares.
O homem precisa recuperar presença, responsabilidade e iniciativa. Não para agradar. Para ocupar sua função de adulto no vínculo.
E a mulher precisa devolver o que não é dela sustentar. Não como vingança. Como saúde.
Casais não adoecem por falta de amor. Muitos adoecem por desorganização de função.
E quando a função se reorganiza, o amor volta a respirar. A voz volta a suavizar. O desejo volta a ter espaço.
Porque no fundo, o que a mulher pede não é perfeição.
Ela pede chão.
E o que o homem precisa não é ser idolatrado.
Ele precisa se lembrar que já é adulto.
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