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Por que meu filho adolescente se afasta?

Foto do escritor: Dra Beatriz Guntzel
Dra Beatriz Guntzel
3 de set.
4 min de leitura

Seu filho adolescente entra no quarto, responde com poucas palavras, evita conversar e parece cada vez mais distante. Você pergunta o que aconteceu e escuta: “Nada.” Tenta insistir e recebe um “me deixa”.




Para muitos pais, esse afastamento desperta uma dúvida dolorosa: por que meu filho adolescente se afasta de mim?


Uma parte desse movimento faz parte da adolescência. O adolescente começa a buscar mais autonomia, privacidade, pertencimento ao grupo de amigos e uma identidade própria. Mas isso não significa que todo afastamento deva ser considerado normal — nem que os pais precisem simplesmente esperar essa fase passar.


Muitas vezes, a distância também é construída dentro das pequenas conversas do dia a dia.


O adolescente se afasta quando sente que conversar não é seguro


Nem sempre um filho deixa de falar porque não quer proximidade. Às vezes, ele deixa de falar porque aprendeu que determinadas conversas terminam em bronca, julgamento, conselho imediato, comparação ou interrogatório.


Imagine uma adolescente que conta:


“Briguei com uma amiga hoje.”


E rapidamente escuta:


“Eu sempre falei que essa menina não era boa companhia.”


A intenção do pai ou da mãe pode ser proteger. Mas o adolescente pode registrar outra mensagem:


“Quando eu conto alguma coisa, recebo uma avaliação.”


Na próxima vez, talvez escolha não contar.


Isso pode acontecer repetidamente, sem que ninguém perceba.


“Meu filho só responde ‘sim’, ‘não’ e ‘normal’”


Essa é uma queixa muito comum.


“Como foi a escola?”


“Normal.”


“Aconteceu alguma coisa?”


“Não.”


“Você está estranho.”


“Não estou.”


“Então por que está desse jeito?”


“Mãe, me deixa.”


Nesse momento, parece que o problema é a falta de diálogo do adolescente. Mas vale observar o que acontece antes do “me deixa”.


Quando toda tentativa de aproximação vem acompanhada de muitas perguntas, pressão para responder ou necessidade de descobrir imediatamente o que está acontecendo, o adolescente pode sentir a conversa como invasão, e não como acolhimento.


Quanto maior a pressão para ele falar, maior pode ser a vontade de se fechar.


Talvez seu filho não tenha parado de falar. Talvez tenha mudado com quem fala.


Esse é um ponto importante.


Seu filho pode conversar durante horas com amigos, participar de grupos, mandar mensagens, jogar online, rir diante do celular — e quase não contar nada dentro de casa.


Isso costuma gerar uma sensação difícil para os pais:


“Ele fala com todo mundo, menos comigo.”


Antes de interpretar isso apenas como ingratidão ou desinteresse pela família, vale fazer outra pergunta:


Como ele se sente quando fala comigo?


Ele sente que será ouvido até o fim?


Pode discordar sem que a conversa vire confronto?


Pode admitir um erro sem receber imediatamente uma palestra?


Pode demonstrar tristeza, vergonha, raiva ou medo sem ter seus sentimentos diminuídos?


A qualidade dessas experiências determina quanto da vida dele chegará até você.


O celular é realmente o culpado?


As telas podem ocupar espaço demais na vida de crianças e adolescentes e precisam de limites. Mas atribuir toda a distância ao celular pode esconder uma questão maior.


Às vezes, o celular não criou a desconexão.


Ele apenas passou a ocupar um espaço onde a conversa já estava ficando difícil.


Quando o adolescente encontra fora de casa mais escuta, validação ou liberdade para ser quem é, naturalmente começa a investir mais nesses ambientes.


Por isso, retirar o celular sem olhar para a qualidade da comunicação familiar pode aumentar o conflito sem resolver a raiz do problema.


Alguns comportamentos dos pais afastam sem intenção


Nenhum pai ou mãe precisa se comunicar perfeitamente. Mas alguns padrões, quando se tornam frequentes, podem fechar gradualmente o canal de diálogo:


• corrigir antes de escutar;

• transformar qualquer relato em conselho;

• minimizar o sentimento do filho;

• comparar com irmãos ou outros adolescentes;

• usar ironia ou deboche;

• interpretar discordância como falta de respeito;

• fazer muitas perguntas seguidas;

• trazer assuntos confidenciais para outras pessoas;

• procurar conversar apenas quando existe algum problema;

• usar frases como “na minha época eu não fazia isso”.


O problema não está em uma frase isolada.


Está no padrão que ela constrói.


Como voltar a se aproximar do seu filho adolescente?


A reconexão geralmente não começa com uma grande conversa.


Começa com pequenas mudanças na forma de se relacionar.


Em vez de:


“Por que você nunca me conta nada?”


Experimente:


“Você não precisa falar agora. Mas quando quiser, eu estou disponível para ouvir.”


Em vez de:


“Você está exagerando.”


Experimente:


“Para você, isso parece ter sido importante.”


Em vez de imediatamente resolver o problema, pergunte:


“Você quer que eu só te escute ou quer pensar comigo no que fazer?”


Pode parecer uma diferença pequena. Para um adolescente, não é.


Você está mostrando que conversar com você não significa automaticamente perder autonomia.


Quando o afastamento merece mais atenção?


Mudanças de comportamento precisam ser observadas no contexto.


Se, além de se afastar da família, o adolescente passa a se isolar também dos amigos, abandona atividades que gostava, apresenta alterações importantes de sono ou alimentação, queda significativa no desempenho escolar, sofrimento emocional persistente ou mudanças intensas de comportamento, é importante buscar avaliação profissional.


Nem todo silêncio é apenas uma dificuldade de comunicação familiar.


Por isso, observar o conjunto é fundamental.


Antes de perguntar “por que meu filho se afastou?”, faça outra pergunta


Talvez a pergunta mais útil seja:


“O que acontece entre nós quando ele tenta se aproximar?”


A comunicação entre pais e filhos não se constrói apenas quando existe um problema para resolver.


Ela é formada diariamente: no jeito de perguntar, de ouvir, de corrigir, de discordar e até de sustentar o silêncio.


Seu filho adolescente precisa de autonomia.


Mas autonomia não precisa significar distância emocional.


Quanto mais ele percebe que existe espaço para falar sem perder o vínculo, maior a possibilidade de continuar encontrando em você um lugar seguro para voltar.


Seu filho está se afastando ou vocês estão apenas com dificuldade de encontrar uma nova forma de conversar?


Se você sente que ele fala cada vez menos com você, o primeiro passo pode ser observar como essa comunicação está acontecendo hoje — antes de tentar fazê-lo falar mais.






 
 
 

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