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Seu filho não é o sintoma: quando o rótulo chega antes da escuta

Foto do escritor: Dra Beatriz Guntzel
Dra Beatriz Guntzel
21 de set.
3 min de leitura

Vivemos um tempo em que quase todo comportamento infantil parece precisar rapidamente de um nome. A criança é difícil, desafiadora, tímida, ansiosa, hiperativa, agressiva, sensível demais. Em outros casos, existe um diagnóstico clínico importante, como TDAH, autismo ou algum transtorno de linguagem.




Nomear pode ser necessário. Um diagnóstico bem realizado pode orientar condutas, direcionar tratamentos e ajudar uma família a compreender melhor as necessidades daquela criança. O problema começa quando o nome, em vez de ampliar a compreensão, passa a definir quem ela é.


Existe uma diferença importante entre dizer “meu filho está tendo dificuldade para se comunicar” e dizer “meu filho é difícil”. Na primeira frase, estamos diante de algo que pode ser observado e compreendido. Na segunda, o comportamento começa a se confundir com a identidade.


É justamente aí que entra uma das questões centrais da Fonoaudiologia Sistêmica: uma criança pode saber falar e, ainda assim, ter dificuldade para se comunicar dentro das suas relações. Pode conversar com os amigos e se calar diante dos pais. Pode ter um ótimo vocabulário e responder “não sei” quando alguém pergunta o que sente. Pode aumentar a voz porque ainda não encontrou outra maneira de sustentar sua posição. Pode até descobrir que, em determinadas situações, permanecer em silêncio é mais seguro do que falar.


Por isso, quando uma criança chega até mim com uma dificuldade de comunicação, não observo apenas sua fala. Quero compreender também o que acontece ao redor dessa fala. O que acontece quando ela discorda? Como os adultos reagem quando ela conta algo difícil? Há espaço para terminar uma frase sem ser corrigida? Há perguntas demais? Conselhos antes da hora? Bronca? Medo? Existe espaço naquela família para uma criança dizer algo que os adultos talvez não gostem de ouvir?


As crianças aprendem muito cedo como a comunicação funciona dentro de casa. Aprendem quais assuntos podem circular, quais provocam tensão e quais emoções são mais aceitas. Algumas começam a agradar para preservar o vínculo. Outras atacam. Algumas falam sem parar. Outras se protegem com “não sei”, “não aconteceu nada” ou “não quero falar”.


Isso não significa que todo comportamento tenha origem na dinâmica familiar, muito menos que os pais sejam culpados pelas dificuldades dos filhos. Essa seria uma simplificação perigosa. Significa reconhecer algo básico: a comunicação é relacional. Uma criança não se comunica no vazio. Existe alguém falando, alguém escutando e algo acontecendo entre essas duas pessoas.


É por isso que costumo dizer que a criança apresenta o sintoma, mas a comunicação acontece no sistema.


Olhar além não é negar o diagnóstico


Talvez esse seja o ponto que mais precisa ser esclarecido. Olhar Além dos Sintomas® não significa negar TDAH, autismo, transtornos de linguagem, alterações neurológicas ou qualquer condição que necessite de avaliação e acompanhamento adequados.


Significa apenas não permitir que o diagnóstico encerre a escuta.


O diagnóstico pode explicar uma parte importante do que acontece. Mas aquela criança também tem uma história, vínculos, experiências, temperamento, ambiente escolar e uma maneira própria de se relacionar e se comunicar. Uma dimensão não precisa anular a outra.


Antes de tentar eliminar um comportamento, portanto, vale perguntar qual função ele pode estar cumprindo. O grito pode precisar de limite e intervenção, mas também merece investigação. O silêncio pode ser uma dificuldade, mas também pode carregar uma mensagem. O “não sei” pode indicar que a criança realmente não sabe responder, mas em alguns contextos pode aparecer quando ela não encontra palavras, precisa de mais tempo ou não se sente segura para continuar aquela conversa.


É essa mudança de olhar que me interessa.


Em vez de ficarmos apenas na pergunta “o que essa criança tem?”, podemos acrescentar outras: o que está acontecendo com ela? Em quais situações isso aparece? O que muda quando ela se sente segura? E o que ela está tentando comunicar que talvez ainda não tenhamos conseguido escutar?


Avaliar sintomas é necessário. Investigar diagnósticos, quando existem sinais que os justifiquem, também. Mas nenhuma dessas coisas deveria nos fazer esquecer que existe uma criança inteira diante de nós.


Quando olhamos apenas para o sintoma, deixamos de enxergar a criança.


É desse princípio que nasce o Olhar Além dos Sintomas®: não para negar aquilo que vemos, mas para ampliar o que conseguimos enxergar.


Porque, algumas vezes, aquilo que chamamos de comportamento difícil é apenas a parte mais visível de uma história que ainda não encontrou uma forma melhor de ser comunicada.


Beatriz Guntzel

Fonoaudióloga Sistêmica e Terapeuta Familiar

Criadora do método Olhar Além dos Sintomas® e do CorAVox®






 
 
 

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